Sozinho a desenhar

Porque às vezes estou sozinho. Numa multidão de vozes.

Sexta-feira, Dezembro 01, 2006

posfácio

Vou-me embora. Mudar de casa e de ares. Experimentar uma nova mobília e um novo perfume a mofo.
Não vou parar. Quero fazer mais. Os tempos mudaram, são outros. Daqui, não levo verdades: apenas o que mais me agradou dos dedos nos últimos dois anos. Não fecho a porta – quem quiser, pode sempre voltar.
Sair e instalar-me noutro espaço durou-me meses de arranques e recuos, de melancolias e angústias. Mas quero reajustar os limites de um espaço como este, como um blogue – e aqui não o poderia fazer: este é assim e alterá-lo seria matá-lo.
Não deixo cair o nome. Levo-o também comigo. Porque já me está na pele.

Obrigado a quem cá vem. Espero vê-los lá do outro lado. Eu vou para aqui.

Domingo, Novembro 26, 2006

é este o meu poema preferido:

You Are Welcome To Elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mão e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar


Obrigado Cesariny.

Terça-feira, Novembro 21, 2006

olhos como gaivotas

Não me devia troco. Era óbvio que o patrão não lhe pagava o suficiente por tão altos padrões de serventilismo e bajulação. Disse-lhe que sim.
Assim que descansei pé na calçada azul e amarela, senti uma brisa forte, típica dos lugares costeiros do Norte. Acreditei numa nova tranche que não chegou nos segundos de espera que lhe dispus. Olhei à esquerda: era por ali. Decidi ir a casa tentar a minha sorte no sexo que por lá já deveria jazer, há alguma boa meia hora.

Ia com uns copos no bucho. Nada que não conseguisse controlar, ou afectasse qualquer deliberação. O olhar respondia mal, mas a passada era certa. Dei por mim a caminhar bem depressa. Quem mo sugeriu foram as rotações aceleradas duma cançoneta que trauteava levianamente, modo automático, «alma perdida» – um fado coimbrão, talvez.
Chego. Logo vejo, por entre paredes recortadas, o sexo amarfanhado entre cobertores, lençóis e sono. Dono de um mundo perdido, insolente e desonesto. Deixei-o. Resolvi-me pelo cubículo com sofá de pele e brochura em clave de sol. A porta por trás de mim – fechei-a. Sentei-me. Permiti-me respirar, semicerrar os olhos a ler um poema decorativo a sujar a brancura da parede em frente e criticar. É Pessoa: típico. Desconfiei de mim, da chave e do mar, que já havia desaparecido do horizonte agora de silhueta cinzenta e envidraçada.

Em cima da mesa, estava um plástico gordo, de três discos. Pelo que percebi, teria Coimbra dentro. E tem. Mas teria que confirmar – não se confiam assim as peles de galinha e o estremecer do dorso e o encabular dos miúdos. Autorizei-o tocar e, num impulso, doseei o volume do aparelho no limite máximo das suas capacidades: saíram-me das colunas o sol e um corte degolador: Fernando Machado Soares. Surpreendente. Mais tarde, viriam Luís Goes, António Bernardino, Luís Marinho, Alfredo Correia, as palavras de Manuel Alegre – uma espécie de antologia da segunda metade do século XX das guitarras coimbrãs.
Nunca me perguntei o porquê do fascínio com estas vozes e literaturas. No caso das paixões, nem sempre a razão importa. Eles dão-me a vida e eu retribuo: sem mim – e outros como eu – remeter-se-iam ao esquecimento, perdidas nas prateleiras e no lixo das gavetas perras. Dou-me com prazer a citá-los, ouvi-los, rasgá-los, enternece-los e a divinizá-los. Se o escrevo, reconhecem-me na rua com o fervor reservado às pessoas que escrevem, os intelectuais que adicionam aos povos como favor que lhes fazem – não o irá cobrar por complacência. Talvez chegue a Presidente da República. Ou escreverei livro sobre um. Qualquer coisa que me permita continuar a comer e a ouvir o fado que tão superiormente me embala.

Não consegui ouvir os semáforos disfuncionais, lá em baixo, que iriam, indignadamente, para o jornal da Junta de Freguesia. Pensei nas ondas, no Amor, nas gaivotas, no azul, na morte, nos olhares inesquecíveis e anónimos da rua e do comboio, nos viajantes e em Al Berto, nas cidades maiores que o mundo possível de alguém, nos fogos, nas serpentes e nas florestas doutros países, na viabilidade dos deuses gregos, no socialismo, nas crianças sem fado e sem alma, nas pontes, nas ilhas, na pintura – desta vez, no universo do Dada –, nos sons das cordas e nos dedos, em sexo.
À minha volta, queixavam-se os vidros – a mesa, os copos, os vasos e as flores-faz-conta. Desliguei tudo. Saí. Noite.

Terça-feira, Outubro 10, 2006

sobre a saudade

Tinha tulipas. Era um círculo de relva muito verde com sol por cima. Era coisa para muitas cores e um moinho lá à frente. O vento mexia-o muito e nunca, nunca estava quieto, porque íamos soprá-lo com muita força do muito ar dos peitos cheios-cheios quando o vento se esquecia de o pôr a andar. Às vezes, o senhor do moinho sabia que estávamos lá por causa da tosse depois do sopro. Às vezes sabia e não fazia nada. Quando estava triste. Às vezes contava estórias, ou explicava quem tinha inventado o moinho e que havia moinhos de água, mas não era ali. O rio era baixinho e só se viam pequenas carpas para cima e para baixo. Só tinha uma ponte. Mas como as margens ficavam muito perto uma da outra e a água nos dava por cima do umbigo, metíamo-nos água adentro. Tinha era que ser no princípio da tarde para dar tempo de secar as roupas. Éramos meninas e meninos e não podíamos tirar a roupa toda. Foi a mãe que disse. E o pai assentiu!...

Às vezes, o senhor do moinho fazia bolachas. As melhores de sempre! Mas nunca disse à mãe para ela não ficar triste. As dela também eram um bocadinho boas. E o senhor do moinho quando ficava triste era uma chatice: só trabalhava, só trabalhava e nunca vinha brincar e contar estórias e dizer coisas e rir. Gostamos muito do senhor do moinho. Mas ele ficou doente e agora não nos ouve, nem pode vir cá para fora brincar. Está sempre deitado. É como se estivesse a trabalhar. Nunca faz bolachas. Já nem nos lembramos de quem inventou os moinhos, que era o nome esquisito de um senhor loiro com capa e uma espada e que estava sempre bem disposto e contava estórias bonitas às crianças. Estamos sozinhos. E o céu, às vezes, fica escuro, sem estrelas. Eu vejo à noite, em casa. Da janela vê-se tudo: o moinho, as tulipas, a relva, o rio, as outras casas, as árvores, ali ao fundo, a lua… É uma chatice ter que voltar a casa. Queria não dormir e ir lá para fora brincar. Já tenho saudades de correr! Se tivesse fome, vinha. Ou comia em casa da Diana, ou da Catarina, ou assim. E a minha mãe nunca se chateava!...

Há uma árvore, depois das tulipas vermelhas. Era aí que nos encontrávamos. Sempre. Todos os dias. Na escola, nas férias, nos domingos. Se fossemos calçados, os outros escondiam-se: algo estava mal, havia sarilho. Às vezes, vínhamos calçados para gozarmos com os outros a fugir. Quando chovia não contava. Ao sol, os ramos das árvores faziam o chão ondular. Como a água. Por causa do vento. Uma vez, tentámos saber como se chamava. Perguntámos a muita gente, mas ninguém sabia ao certo. Uma senhora disse que íamos aprender isso na escola, mais tarde. Como não tínhamos muito tempo, concordámos que nem todas as árvores têm que ter um nome. Era à beira do rio. Quando estava muito calor, inventávamos um jogo qualquer na água. Toda a gente! As carpas não gostavam muito que brincássemos na água: iam sempre embora a murmurar alguma coisa, com a boca a abrir e a fechar. Nunca subimos à árvore: ela tinha ramos muito fininhos e tínhamos medo de a aleijar.

Ao final da tarde, íamos para o círculo de relva muito verde – não sabíamos se se chamava assim ou não, mas neste caso decidimos dar-lhe um nome. Círculo de relva muito verde parecia adequado. Juntávamos tudo: lanche, lápis de cor, folhas para desenhar, livros. Um senhor que estava do outro lado do jardim sempre ao mesmo tempo que nós estávamos neste, levava um rádio e punha-se a ouvir música. Era sempre diferente. Às vezes gostávamos, outras vezes mais ou menos. Outras, uns gostavam e outros mais ou menos. O lanche era a primeira parte. Sandes com chocolate, com mel, com geleia de morango, leite daquele com muito chocolate, sumos… tudo na relva. E depois cada um escolhia aquele que queria. Nunca sobrava nada e, na volta, comida só de cheiro na mochila. Se escolhessem dois a mesma coisa, um dia os meninos tinham direito de escolha, no outro as meninas. Se era entre meninos e meninos ou entre meninas e meninas era mais complicado e inventávamos novo jogo para o vencedor levar o prémio. Mas só costumava haver problema quando eram poucas as sandes de geleia. Depois desenhávamos até à hora de ir jantar, que era quando o senhor do outro lado desligava a música e ia embora.

Domingo, Setembro 24, 2006

A chuva é o mar apaixonado.

Quinta-feira, Setembro 07, 2006

Lidar comigo é tão fácil como comer a sopa.

Terça-feira, Julho 18, 2006

desertificado, cansado

As pernas encontravam o ar com a pressa dos feriados.
Pessoas a olharem-se serenamente, entre barulhos e murmúrios, com os seus perfumes caros e requintados demais para o nariz humano. Tecidos de muitas cores, luzes agarradas. Um disparo no caminho para qualquer lado que os leve à morte, que os esqueça. Mesmo os enormes seios que respiram pelo decote. Do outro lado, uma bandelete a pontificar as finas pernas de ganga. Ou uma gravata empertigada que fuma muda e compulsivamente.

Daqui debaixo, no chão, nem o forte odor do café me demove os olhos do mundo. De onde também acabarei por me ir embora. Com os ratos.

Quarta-feira, Julho 12, 2006

assaltado, interessado

Quem diz «filho da puta»? O assaltado ou o assaltante? Quem está zangado, afinal?
Quem fica contente: quem dá ou quem recebe? Nas prendas…
Afinal, depende do que se dá e do que nos levam no assalto. Ou teremos que pensar grande, na conjuntura social. Afinal, eu também tenho culpa nessa.
Desculpa-se o assaltante; prende-se o Estado: estamos todos presos e, afinal, o assaltante connosco – preso também.
Não há nada que possa fazer pela disfunção eréctil dos outros? Somos todos responsáveis.
Afinal, a saúde não é prioridade: é só a educação. É urgente saber quem diz «filho da puta». E a quem.

Terça-feira, Julho 04, 2006

desintegrado, apaixonado

Where, Oh where have you been my love?
Where, Oh where can you be?
It's been so long, since the moon has gone.
And Oh what a wreck you've made me.

Are you there over the ocean?
Are you there, up in the sky?
Until the return of my love
This lullabye

My Hope is on the horizon
Every face, it's your eyes I can see
I plead, I pray through each night and day
Our Embrace is only a dream.

And as sure as days come from moments
Each hour becomes a life's time
When she'd left, I'd only begun this lullabye

This Lullabye, Queens of The Stone Age

Terça-feira, Junho 20, 2006

Quero dizer que gosto de ir ali.

Sábado, Junho 10, 2006

Se o Amor me corrói
mais me hão-de corroer os bichos
da morte,
o esquecimento dos homens.

Cabe-me bem a cabana
suja de papéis.

Muito mar
traga-me a vida.

Quarta-feira, Maio 31, 2006

Meu Amor, a solidão abraçou-me no pôr-do-sol. Sem a inquietante frescura dos teus olhos ou a maresia desenfreada, perco-me das ruas sem alcatrão, no labirinto sujo do pavimento acidentado. Na pequenez do quarto.
As crianças deixaram de jogar à bola, de se fazerem ouvir. O pano enegrecido sobre a cama pacífica desata-me a chorar. Recorro à piedade das pessoas mortas: num livro, noutro. Os carros são os mesmos. Os verdes continuam a não existir. Fazes-me a falta dos pulmões. A amplitude do ar arqueja-me o corpo com os braços para a frente. O nariz parece querer tocar o chão. O umbigo não cede.
Quero brincar, e tu não estás.
Tenho sede. Não me partiste há mais que duas horas.

Terça-feira, Maio 30, 2006

Pois
que se o arrepio da morte me sabota
a luz da lua
no café
com os pés para a rua
também eu serei um doente com chupeta
surdamente
afagado nas saias da mãe

Domingo, Maio 21, 2006

o trabalho é o ócio das paixões.

Domingo, Abril 23, 2006

o homem caiu no shopping

Subia um lanço curto de escadas. A Polícia Judiciária assegurou que nenhum médico ou arquitecto teria a ocorrência na mira. Eram escadas curtas, muito curtas na altura que quebrava o muro de um lado ao outro do prédio, esventrando-o com pessoas loucas, lúcidas e ingénuas, pessoas com muitos cabelos, com cores, cheias de mãos a mexer aqui e ali, desalmadamente, com esgares superiores e dedos-insectos. Como manta. A tocar em todos os pontos da barriga deitada, ofegante, para cima.
Os pés cabiam no lugar de dois e, mesmo com cordões, era difícil encontrar quem caísse, assim, desamparado. Naquele metal ardente e nebuloso, triste e ensaboado, revolto e resoluto, surdo, cavernoso, calcado na sua cauda canina, intensamente por vezes, imperceptível, levianamente – amor dado por adquirido, com falta de rega e unhas de conversa, roubado pelas pálpebras muito abertas dos olhos assustadoramente esbugalhados, das crianças em transe, apontados às bandeiras raciais que guardam o grande relógio.
Às quatro da tarde, o homem que caiu no shopping era já uma linha branca, com as formas do sono. As lojas vazias engravidaram de amigos que não compravam nada: esperneavam em comentários revolucionários, outros encantados e fantasistas – outros ainda era tudo a mesma coisa. As lojas cheias morreram com o vento frio das portas, agora, sempre abertas, cuidadas por uma fita com dizeres: os transeuntes anónimos levaram os medos para casa. E as casas encheram depressa demais, demasiado cedo no dia, e o pão acabou frio, sem saco que os una, sem mão que os agarre, impedidos de fado. Perdidos numa padaria inteiramente desconhecida à noite. E ninguém sabe… era possível que ninguém os comesse.
Deus via tudo.